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Prefácio


«L´eau est la maîtresse du langage fluide, du langage sans heurt, du langage continu, continué, du langage qui assouplit le rythme, qui donne une matière uniforme à des rythmes différents» Gaston Bachelard, L´Eau et les Rêves, p. 209.

A Professora Cláudia Maria Ribeiro sob os efeitos do Kairós lusitano deixou-se apalavrar pelo Museu Imaginário de André Malraux tecendo também ela uma espécie de alter-ego desse mesmo Museu. A nossa douta tecelã fez-se marinheira para melhor navegar nas várias águas da Vida onde nelas soube respirar o Género e a Sexualidade. Para a sua construção articulou de forma iluminante "o olhar do geógrafo, o espírito do viajante e a criação do romancista" (Paul Ricoeur) culminando essa mesma articulação numa obra original pela sua erudição, reflexão e ousadia estética.

Entre a aventura da Métis (arte da tecelagem) e a aventura aquática (arte de bem navegar) a autora soube, sentindo e pensando a sua sensibilidade, guiar o seu olhar reflexivo num permanente vai e vem entre a intimidade da sua fina escrita e o labirinto dos museus visitados, passando pelas suas variadas viagens culturais, pelas muitas obras especializadas consultadas, pelas intensas reflexões desfiadas pelas suas noites passadas à luz da Chama de uma Vela, embora preferíssemos o título no original La Flamme d´une Chandelle, para evocar aqui um dos seus mestres prediletos, Gaston Bachelard.

Nesta teia do pensamento reflexivo, da escrita, da sensibilidade e do olhar nasceu um estudo suscitador de vários "devaneios poéticos" (mais uma vez a lembrança de Bachelard) que nos conduzem à imaginação material das águas purificadoras, eróticas, protetoras, mitológicas, especulares, indefinidas e vivas e, consequentemente, ao seu simbolismo aquático que Mircea Eliade assim traduziu:

As águas simbolizam a totalidade das virtualidades; elas são fons et origo, a matriz de todas as possibilidades de existência. [...] As águas são os fundamentos do mundo inteiro, elas são a essência da vegetação, o elixir da imortalidade; [...], elas asseguram longa vida, força criadora e são o princípio de toda a cura, etc. (1977, p. 231-232).

As metáforas aquáticas também elas não são esquecidas pela autora-artista: "mergulhos", "inundando" e "enxurrada" completam o seu Museu do Imaginário em diálogo como o Género e a Sexualidade. Se a imaginação da água, tal como ela nos é dada a conhecer por Gaston Bachelard, excita o nosso imaginário colocando-nos face ao simbolismo aquático (ELIADE, 1977, p. 231-263), não é menos certo que o "conjunto água-Lua-mulher tem sido percebido como o circuito antropocósmico da fecundidade" (1977, p. 232). E assim sendo, entende-se que a sexualidade e o género sempre espreitem quando o imaginário das águas, e estamos pensando particularmente nas águas amorosas, maternal e feminina (BACHELARD, 1993, p. 29-56 e 132-152) inunda os saberes, onde se questiona a hegemonia masculina nas artes e se abordam as noções de genialidade, de criatividade e de excentricidade, para melhor produzir uma "enxurrada de possibilidades". De modo muito inspirado a Professora Cláudia Ribeiro associa esta "enxurrada de possibilidades" a outra metáfora que é a do toque polifónico dos sinos enormes que, como cogumelos de uma floresta encantada, pululam no espaço artístico barroco da cidade de Braga (a Venerável Bracara Augusta!) que a acolheu no seu esplendor prenhe de simbolismo criador.

É, portanto, embalados pela "correnteza" (a metáfora pertence à autora deste Museu) do texto sentido e dos quadros meticulosamente selecionados e pensados que paulatinamente nos vamos dando conta da riqueza profunda das águas que sacodem o nosso olhar da Alma universal! Contemplando em Budapeste o rio Danúbio, na sua imensidão e grandeza aristocrática, a nossa autora-artista convida-nos a imergir numa rica correnteza conceptual (imaginário, museu imaginário, imaginário das águas, sexualidade, arte erótica, género, rizoma, metamorfose, viagem, experiência, Dionísio e poder/resistência) a fim de melhor acicatar o desejo aquático do leitor para mergulhar no imaginário das águas das quais ele ressurgirá transmutado e metamorfoseado não num mero "homem novo", mas antes num andrógino primordial concebido como esférico (como expressão da perfeição e da totalização) antes da cisão em dois seres: homem-mulher.

Pensamos, assim, que é, pelas suas qualidades, a figura do andrógino que melhor parece dar conta da polissemia cantante e erudita deste Museu do Imaginário das Águas, Género e Sexualidade que agora se abre diante de nós... tendo à sua porta visível-invisível (estamos pensando no Castelo do Graal... só acessível aos "puros de coração"... a um Parsifal depois da sua peregrinatio iniciadora!) um Cisne como seu guardião e sabemos por Bachelard que o cisne na literatura "é um ersatz da mulher nua. É a nudez permitida, é a brancura imaculada e entretanto ostensível" (1993, p. 46). Deste modo, nada melhor, para terminarmos este prefácio, que nos deixarmos banhar pelo pudor intimidante de uma "femme au bain" numa fonte de águas claras e primaveris e ao longe, num claro-escuro, vislumbrarmos o olhar penetrante e cintilante de Cláudia Ribeiro refletido nos espelhos da Vida e da Natureza!


Braga, 17 de fevereiro de 2014

Alberto Filipe Araújo

Instituto de Educação da Universidade do Minho

Referências

BACHELARD, Gaston. L´Eau et les Rêves. Essai sur l´imagination de la matière . Paris. Librairie José Corti, 1993.

ELIADE, Mircea. Tratado de Historia das Religiões. Trad de Natália Nunes e Fernando Tomaz. Lisboa: edições Cosmos, 1977.


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